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Leonel Moura

Criadores do Parque

Esperamos pelo leonel moura em frente às suas “sereias”, na entrada do edifício da sonae. É domingo e por isso só estamos nós e elas. E um sol radioso que torna o azul dos azulejos ainda mais brilhante.

Leonel moura surge vestido de preto (a sua imagem de marca), contrastando com as cores vibrantes da sua obra.

“Este azulejo está ao contrário...” - repara, apontando para uma das sereias. “E nunca tinha reparado?”, perguntamos. “Não...”, responde. Sentamo-nos no banco que há no cimo das escadas que interrompem o seu painel de azulejos, para conversar.

AS SEREIAS E A ARTE DE IR MAIS ALÉM
PDN: Como surgiu esta obra “As Sereias”? Sabemos que foi resultado de um concurso...
LM: Eu para ser muito sincero, não concorro. Nos últimos 10 anos concorri a dois concursos - este e um outro de arquitectura (porque eu também faço arquitectura) onde aliás fui eliminado por falta de um papel... Mas o Arqº Bernardo Silva Pinto convidou-me (porque queria uma grande variedade de propostas) e eu, muito pelo apreço que tenho por ele, disse “pronto, muito bem, vamos fazer um projecto”. A minha abordagem foi uma abordagem séria, de fazer o melhor possível, dentro deste tema, “as sereias”, mas sinceramente entrei sem grandes expectativas. Foi uma grande surpresa quando me disseram que eu tinha ganho o concurso...
Enquanto artista, sinto-me capaz de fazer qualquer coisa que tenha a ver com criatividade; não sou um artista que só faz a pintura e só pinta rectângulos ou quadrados ou só faz escultura, não me enquadro nesse tipo de artista; a minha perspectiva é muito mais aberta, é a do artista que pode intervir em qualquer coisa. E aliás é o que eu faço: faço arquitectura (ainda agora fiz uma ponte), trabalho com robótica...

PDN: E escreve também...
LM: Sim, escrevo.

PDN: Mas se tivesse de escolher entre uma dessas facetas qual é que escolhia?
LM: Bem, é evidente que há situações muito diversas. Se me pedem um painel de azulejos é isso que vou fazer.  Eu tanto me sinto apto a fazer um painel de azulejos, como uma exposição... 
Acho que o que tem interesse na arte é sempre tentarmos ir um pouco mais além do que aquilo que se espera. O nosso papel como artistas não é “decorativo” (para isso há decoradores, designers, artesanato decorativo) - nós devemos dar uma visão um bocadinho diferente das coisas. Portanto, em vez de fazer uma coisa muito alegórica, muito poética - com as sereias a nadar por exemplo - assumi o projecto indo direito ao assunto (o que é um bocado o meu estilo), pegando no que é uma sereia (que como nós sabemos é um ser mitológico - bastante estranho, deve ser dito, metade mulher, metade peixe). Fui à internet à procura de imagens de quadros que estão nos museus (porque os museus estão cheios de mulheres nuas)...

PDN: Clássicos, neste caso...
LM: Sim, clássicos, porque lá está, os clássicos são mais aceites (já não há grandes duvidas sobre eles), se fossem mais recentes poderiam ser mais polémicos - porque teriam conotações agarradas que eu não queria - eu queria uma mulher nua, mas queria uma mulher nua feita pela arte. Fui à internet, andei à procura - era importante a posição para depois encaixar a cauda do peixe - e depois fiz uma colagem, uma colagem digital mas é uma colagem. E o resultado está aqui. É uma coisa simultaneamente (acho eu) - interessante, mas estranha, porque as pessoas quando olham mesmo com atenção percebem que aquilo é uma colagem de um quadro de uma mulher com um peixe. É uma coisa talvez directa e simples demais - as pessoas estão sempre à espera de uma coisa mais rebuscada...

PDN: Quando fez esta obra já sabia que este edifício era da Sonae?
LM: Sim, porque eles fizeram parte do júri - o representante deles no júri foi um dos que votou no meu  projecto, mas depois sei que houve umas pessoas que acharam que era um bocadinho escandaloso - mulheres nuas - mas foi rapidamente superado. Apesar de tudo o país já evoluiu um bocadinho (risos) e ainda por cima são quadros que estão nos melhores museus do mundo, não é pornografia...

PDN: Qual foi a última vez que tinha visto esta sua obra?
LM: Eu passo aqui às vezes, de carro... e olho a ver se está tudo ok.

PDN: Mas hoje descobriu um erro...
LM: Pois foi... mas a pé acho que não tinha vindo cá ainda desde que se fez, daí não ter dado pelo erro...

PDN: E gosta do cenário, do sítio onde a obra está?
LM: Sim, acho que ficou bastante bem, mesmo as cores, tudo...
É interessante salientar que tem havido (pelo menos até aqui), no Parque das Nações, muito cuidado na escolha dos objectos da chamada arte pública - que não há na maioria das circunstâncias - o país está aí cheio de “horrores”, porquê? Exactamente porque não há esse tipo de atenção. Pode não ser com concursos, mas tem de haver uma escolha muito, muito, criteriosa. Porque - devo dizer isto, embora alguns artistas fiquem zangados comigo - a maioria dos artistas não têm capacidade de fazer obras de arte pública. Porque normalmente o que fazem é pegar numa coisa que fazem no atelier e pôr 10 metros maior - e isso não resulta. As coisas tem de ser feitas para aquele sítio específico.
O Parque das Nações é um bom exemplo de como as coisas se devem fazer - acho que muitas câmaras deviam olhar para este espaço e perceber como se pode fazer isto, como é se pode enquadrar a arte pública no espaço urbano de uma maneira interessante e agradável e que não é inócua.
Porque a maioria das obras de arte aqui não são inócuas, são peças interessantes, que têm a sua presença e a sua força e estão muito bem enquadradas.

A AMBIÇÃO DE SER CRIATIVO E O DESAFIO DE VIVER NO MUNDO
PDN: Foi embaixador português do “Ano Europeu da Criatividade” onde se falou sobre as “cidades criativas”, acha que o Parque das Nações (que é uma cidade dentro da cidade) tem essa componente da criatividade? E os portugueses, são criativos?
LM: Nada. Mas isso não tem a ver com o problema da criatividade - tem a ver com outras coisas que estão antes disso. Para uma pessoa ser criativa tem de haver algumas qualidades. Uma delas, muito importante, é ser ambicioso. Ora não há coisa que os portugueses mais detestem do que a ambição. Acham que a ambição é uma coisa horrível e portanto combatem-na. O ser ambicioso, nesta perspectiva, é querer contribuir, é querer fazer qualquer coisa. E os portugueses gostam é do low profile, das pessoas humildes... E outra coisa que também falta muito na sociedade portuguesa é arriscar. É  porque nós, quando queremos ser criativos, quando estamos a inovar, temos de correr riscos...


PDN: Sair do nosso “patamar de segurança”...
LM: Pois, porque estamos a fazer uma coisa que ainda ninguém fez, portanto é um risco - tanto pode ser fantástico como pode ser uma porcaria... e as pessoas tanto podem dar-nos os parabéns como rirem-se de nós.
O próprio sistema educativo, por exemplo, baseia-se num princípio que é terrível, que é a capacidade de o aluno dizer exactamente o que o professor disse - ora isto é o contrário da criatividade... É uma educação baseada na repetição - quanto melhor repete, melhor aluno é. Não é, é péssimo. Porque não acrescentou nada. Ou seja, tem que repetir, no que diz respeito aos conhecimentos básicos, mas depois tem que acrescentar qualquer coisa e aí já é preciso ser criativo...
Portanto, esta questão da falta de criatividade no nosso país tem a ver com muitos factores. E nós hoje vivemos num mundo em que esta questão da criatividade é essencial. Porque a maioria das pessoas não se deu bem conta do que sucedeu nestas últimas décadas. E uma delas, muito forte, é que nós deixámos de viver em Portugal. Nós não vivemos em Portugal, vivemos no mundo. Tanto recebemos informação de todo o mundo como as nossas acções, se forem minimamente interessantes, podem ser vistas em todo o mundo, têm uma visibilidade muito mais vasta...

Portanto, eu como artista já não estou a trabalhar para o meu meio, para o meu espaço, mas sim para o mundo, e é evidente que isto exerce uma pressão positiva sobre a própria criatividade de cada um. Eu penso que o Parque das Nações é um modelo que, no contexto do que se chama “cidade criativa”, tem falta de uma componente muito forte de empresas ligadas às novas tecnologias - tem alguma coisa, como o Pavilhão do Conhecimento, mas não tem propriamente aquilo que é muito típico destas cidades criativas que são dezenas ou centenas de ateliers criativos, estúdios, pequenas empresas que produzem coisas - só para lhe dar um exemplo 50% das pessoas da cidade de Amsterdão trabalham em indústrias criativas - isto significa que, em cada duas pessoas que encontramos, uma é da área criativa, portanto, a sinergia, a interacção, a vida que se estabelece nos cafés, à noite, nos amigos, é brutal...

PDN: Em Portugal não há muito esse espírito do convívio, as pessoas saem do trabalho e vão directamente para casa...
LM: Pois e os convívios são uma parte fundamental do trabalho hoje em dia porque, lá está, ninguém sabe tudo, nem ninguém sabe muito. Sabe um bocadinho... E portanto, o nós contactarmos com outras pessoas, com outros saberes, ajuda-nos imenso, porque às vezes estamos a tentar fazer uma coisa e na conversa com outro (que às vezes nem tem nada a ver com aquilo) pode-nos dar um click, surgir qualquer coisa que ajude...
Aqui no Parque das Nações falta essa componente. Porque se tivesse essa componente também teria mais espaços para os encontros - por ex, os cafés, que há aqui não são muito atraentes - são do tipo fast food - não há espaços de convívio, que era importante. É uma parte nova da cidade, é compreensível.
Se houvesse mais dessas empresas pequenas que falava talvez houvesse mais pressão para aparecerem esses espaços de convívio. E o Parque das Nações também é caro, por isso é difícil para os pequenos.

OS ROBÔS COMO MÁQUINAS DE FAZER ARTE
PDN: Gostávamos também que nos falasse um bocadinho do seu projecto da “Bioarte”, dos robôs, que é muito interessante...
LM: Eu desde há 10 anos estou muito interessado em tentar criar um novo tipo de arte. O entendimento que eu faço da arte não tem tanto a ver com os objectos - se é bonito, se é feio, se é interessante - acho que a arte é basicamente uma história, que começou na pré-história e foi mudando ao longo dos tempos, portanto a arte hoje define-se pela sua história e aquilo que interessa num artista no tempo em que vive, é se ele consegue acrescentar qualquer coisa a essa história. O simplesmente continuar tendências pode ser interessante, mas do ponto de vista da história de arte não tem interesse nenhum porque isso já foi feito, está feito e esse capítulo encerrou-se.
Como artista, a minha ambição é acrescentar qualquer coisinha à história da arte. E portanto tenho andado nesta última década muito interessado em superar um dos fundamentos do que nós consideramos ser arte que é o de que só os humanos fazem arte. É um dogma. Considera-se que é assim e pronto. Eu tenho a intenção de demonstrar que não é assim - que não só os animais (isso já está mais ou menos demonstrado), mas as máquinas são também capazes de fazer arte.
E estou muito interessado em máquinas - em particular nos robôs,  porque são máquinas inteligentes. E são máquinas com sensores - com olhos, com ouvidos, com capacidades para se posicionarem no ambiente, para fazer algo - o que eu chamo a criatividade artificial, uma arte feita pelas máquinas.

PDN: Mas essa arte será sempre programada pelo homem...
LM: É, mas é preciso perceber que o tipo de programação não é uma programação que dê ordens à maquina mas uma que dê à máquina a capacidade de ela tomar decisões - é esse tipo de programação que eu uso, baseada na autonomia e na capacidade da máquina tomar decisões. Os meus robôs pintores não pintam o que eu quero, pintam o que  eles querem. Eu dou-lhes uns princípios, umas ideias básicas e a partir daí eles desenvolvem a sua própria pintura, porque eles têm olhos e portanto têm a capacidade de ver o que querem fazer e a partir daí vão decidindo o que eles querem fazer
Descemos as escadas e o Leonel aponta para ao texto da Odisseia de Homero sobre Ulisses (gravado no painel do lado esquerdo) e diz-nos “esta fonte foi criada por mim no início dos anos 80 - é parecida com essas letras que imitam o computador - mas fui eu que fiz. Chama-se “Moura” - grande imaginação” (risos)...
Despedimo-nos do artista e fomos às nossas vidas com a sensação de estar ainda no princípio de qualquer coisa muito maior do que nós. E com muita ambição de sermos criativos.

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