Alexandre Burmester
Ao vermos Alexandre Burmester subir a rampa que ele próprio desenhou, no emblemático edifício vodafone, não pudemos deixar de pensar qual será a sensação que ele sentirá ao percorrer um caminho que ele próprio traçou... Literalmente, neste caso.
Confessou logo ser pouco adepto de fotografias (apesar de ter uma irmã fotógrafa). De facto é difícil encontrar alguma imagem dele...
Mas disponibilizou-se com simpatia e simplicidade a posar para nós, por entre conversas e sorrisos e a falar do “seu” edifício e do seu ofício.
Depois de lhe agradecermos o facto de estar connosco em Lisboa - e sabendo que nasceu no Porto e tem o seu atelier em Gaia - não evitámos a tradicional pergunta: gosta mais de Lisboa ou do Porto?
-”Gosto de Lisboa e do Porto”, diz. Acha que não há sítios maus “bem, se calhar há alguns sítios onde eu não gostava de morar, mas Lisboa é um sítio onde eu gostaria de morar... mas gosto do Porto também”.
“Cada cidade tem os seus encantos - é preciso é conhecê-los bem... “ acrescentou.
“Qual é a parte aqui do edifício (Vodafone) de que gosta mais?” , perguntámos. Respondeu-nos como um pai responderia sobre os seus filhos: “Não sei, isso é como me perguntar qual é o projecto que gosto mais... (risos)”
Tivemos curiosidade de saber se o facto de ver a sua obra erguida e de estar aqui uma vez mais ainda lhe provoca as mesmas sensações:
“Existe uma ligação emocional à nossa obra, que vai variando ao longo do tempo, evoluindo, de início é mais apaixonada...”
O RECONHECIMENTO
Sobre os prestigiados prémios que recebeu com este edifício - o Prémio Valmor e o Prémio Internacional Dedalo Minosse - diz-nos “não ligo muito a prémios, (nem fui a Itália receber o 2º) mas é sempre bom ser reconhecido, claro. O mais importante é os meus clientes ficarem satisfeitos.”
A “PAREDE DE BETÃO“ QUE AFINAL É UMA JANELA
Ao nosso lado esquerdo ergue-se a fachada virada para a Av. D.João II - vulgarmente intitulada “parede de betão” e colocamos a questão (que suscita as mais variadas teorias): porque é que esta fachada não tem janelas?
E nada como ser o próprio Alexandre Burmester a responder:
- “É fácil de perceber, aliás basta virarmo-nos para lá... Muito embora o Parque das Nações seja por excelência o sítio onde muitos arquitectos fizeram obra, se olhar para o lado de lá da rua não vê nada de interessante, não é?” Além disso não quis que os prédios do lado de lá participassem no interior do prédio - “este é um edifício interiorizado, vira-se para dentro e vira-se para as vistas do rio”.
A parede de betão é mais uma janela do que propriamente uma parede... “Aquilo é uma janela que está ali”, reforça.
“Se repararem, a fachada de betão está elevada em relação à rua - para quem passa poder ver as vistas... É também uma obra de engenharia notável em betão branco.”
Provavelmente quem passa no dia-a-dia no passeio nem se interroga porque consegue ver o Pavilhão de Portugal e o rio através da fachada do edifício, pensamos. Faz todo o sentido e ficamos a gostar ainda mais desta parede de betão que afinal é uma janela. E ainda bem.
AS PASSAGENS
Sobre o espaço aberto interior do edifício e as suas passagens o arquitecto salienta:
“Na altura em que se fez este projecto o Pavilhão de Portugal ia ser utilizado pelo Conselho de Ministros e então pretendia-se que houvesse uma passagem, um “atravessamento” deste quarteirão, uma alternativa que não fosse pelo centro comercial, ou seja, quem chegasse ao Parque das Nações poderia fazer esta travessia sem ter de entrar por lá e daí a razão desta passagem - só que esta acabou por ser interrompida pela loja do edifício...
Infelizmente o Pavilhão de Portugal também está fechado. De qualquer maneira nós também não quisemos que isto fosse demasiado passagem, que fosse uma alternativa, mas não propriamente a passagem...”
OS MOMENTOS DO EDIFÍCIO
O espaço interno do edifício tem 3 elementos, como nos explica Alexandre Burmester:
•”o espelho de água, que é um espaço quase zen, onde o edifício ganha profundidade no reflexo na água;
•o jardim, que tem uma praça, essa, sim, com características mais públicas e também as passagens que atravessam o espaço. O jardim - só se percebe de cima - é redondo;
•a quota inferior, que é o jardim de utilização privada da Vodafone e que abrange toda a zona de atendimento a clientes, sendo um espaço mesmo interiorizado, portanto são três momentos completamente diferentes...”
“PAISAGEM DE SI MESMO”
Segundo o arquitecto, “os edifícios cumprem um objectivo e devem transformar-se no gozo de quem o pratica e no gozo de a quem se destinam” e faz obra para os clientes e por isso, cada projecto é um compromisso. Quisemos saber o que sabia ele sobre o gozo deste edifício particular pelos seus habitantes...
Disse-nos que “agora já não dizem nada, já estão aqui há muito tempo (risos)”mas que ao princípio tinham ficado muito satisfeitos (vinham das Torres de Lisboa)”.
A vivência deste espaço resulta, como nos explica Burmester, de um conceito do próprio desenho - “a gente vê as pessoas que trabalham, que circulam... quem circula aqui é paisagem de si mesmo - eu vejo as pessoas que cá trabalham; eu venho cá fora fumar cigarros, em todos os patamares existe um sítio de descanso para a pessoa se sentar, fumar, passear, falar ao telefone e ao mesmo tempo que faz tudo isso tem vista sobre o rio e tem vista sobre o Parque “.
Achámos muito interessante e poético este conceito. E muito bem conseguido também.
REGRESSO
O frio aperta e está na hora de regressar.
Nós ficamos pelo Parque das Nações e Alexandre Burmester regressa a outra “Nação”, o Porto (que, segundo ele diz em tom de brincadeira, “só é uma Nação para o Futebol Clube do Porto”).
Uma coisa é certa: graças a este agradável e interessante encontro, alargamos a nossas vistas sobre este magnifico edifício do Parque das Nações, que é paisagem de todos nós.
- Atividade: Arquiteto
- Obras no Parque: Edifício Vodafone



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